28.9.08

/[pequeno] enxerto #2

(...)
tenho meus cigarros, música, livros, meus escritos, e uma distração da qual só você pode me tirar. faça-o, se assim [e apenas se] o quiser.
enquanto você decide, eu posso esperar um pouco. parar para descansar, sentir a ventania que leva os meus cabelos e arranca os telhados das casas. posso ver meus filmes favoritos, ir a biblioteca, escrever um diário, e tentar não pensar como você está indo [às 15h45 de uma tarde qualquer]. posso desconversar quem conheço, descobrir desconhecidos, cair em locais improváveis; me distrair, enfim.
você? faça qualquer coisa, se assim o desejar. fale, reclame, desabafe, se exponha. ou não diga nada [às vezes um silêncio pode te revelar ainda mais (às vezes, a imaginação é minha inimiga justamente por poder e querer demais.).]
pode ser um sussurro, um grito, uma enorme interrogação vermelho-sangue, uma fotografia em preto-e-branco. pode ser qualquer coisa que te aproxime de mim. que torne a tua ausência menos prolongada, menos difícil de digerir. que a torne, afinal, menos ausente.

/editado por razões óbvias. parte das palavras retiradas de uma carta escrita em jul/ago deste ano, num avião em turbulência. junte-se a isso a minha cafonice e minha falta de atenção, boa coisa não poderia sair.

26.9.08

/i just cannot resist.

eu me perdi não no teu idioma, mas no meu próprio. na conjugação dos meus verbos, no articular das minhas frases, tão medrosas e truncadas, e no abrir da minha boca, que ensaia, mas não chega ao fim. o teu idioma é fácil, teu ritmo é fácil. o meu tem palavras demais, significados e entrelinhas demais, riffs matadores, um baixo do mal, ou bpms acelerados, ensurdecedores.
[isto é uma confissão. eu me perdi porque quis ser duas: a simples e a complicada. um duelo. pensei que a simples venceria. entretanto, ela é uma caricatura, uma foto velha e desbotada, alguém que passou há muito. me dei conta que, ainda que tenha desejado o contrário, prefiro continuar a me perder e afinal me achar, só que não nos teus gestos suaves, no teu abraço amoroso, paciência sem fim, sorriso largo e fácil. eu sei perfeitamente quando e onde deixei tua segurança de lado e troquei de direção. para ti, é o caminho errado. para mim, é doce e me acolhe. é um ombro amigo, um afago, um 'algo' que ainda foge da minha definição. sem querer que eu mude, que apenas me recebe e deixa ficar ali, sabe? é do que eu preciso. ser aceita, não ser moldada. nada há de errado com teus modos, eu apenas não partilho deles, somos diferentes demais. podes não entender, mas
gente que não gosta de simplicidade talvez não mude nunca. gente que gosta de arriscar talvez passe a vida toda se arrependendo de quando teve a chance de sair do preto-e-branco e ir para o technicolor. como vou saber, se não empurrar todas as minhas fichas no 42 vermelho? eu posso ganhar, posso perder. nossas interpretações para ganhos ou danos são opostas. melhor jogar e perder do que se retrair e se contentar com o mais fácil. essa sou eu. olá, nice to meet you.]
pois bem. meu technicolor pode estar na próxima esquina, como bem pode não chegar nunca. posso tornar o ácido doce, mas, se acontecer, serei eu, sozinha, ou com quem quiser apostar na minha dualidade. por deus, eu não posso ser a única pessoa deste mundo a sorrir e permanecer num local quando ouve uma sirene de alerta. os ratos abandonam um navio prestes a afundar. eu? eu vou até o fim, só para ver o que acontece.


/eu jogo. porém, sempre apostando num happy ending. e medo de ser feliz, definitivamente, não encaixa aqui.

25.9.08

coltrane é curitiba, sempre será. não importa que ele tente transformar coltrane em nyc. coltrane é curitiba, sentada perto da janela, fumando, sentindo o vento gelar meu nariz e imaginando o que os vizinhos do prédio da rua ao lado faziam acordados àquela hora da madrugada (sempre havia alguém acordado tarde da noite naquele prédio). coltrane e as sensações de estar longe de tudo que você odeia e perto de nada. perto de nunca se sentir em casa, em lugar nenhum. piano, trompete, interlude para cochilar, interlude para sonhar, estudar um pouco, trabalhar, interludes para levantar e espiar um lugar que não me pertence, nove andares acima. sorriso. nenhum lugar me pertence. talvez eu seja um pouco de todos, talvez todos eles façam parte de mim.

claro, nova fuga está programada, ao que parece, eu sempre escolho os caminhos mais difíceis e teimo em fugir.
mas a primeira sensação, esta é minha e nada há de tirá-la daqui.
cheers.

22.9.08

/sem título

Existe um brilho qualquer num abrir de olhos no escuro, de enxergar as luzes dos 18 andares acima de nós refletidas no teu rosto. Existe algo de bonito no mexer das pernas, no tocar dos dedos para fugir do frio. Nos fios de cabelo que sobram em nossos travesseiros, no hálito quente do teu bom dia, em levantar se arrastando pelo corredor, de preguiça, da vontade de ficar ali muito mais que as horas que, na minha mente, se transformaram em meros minutos.
Tomando o café entre fumaça, sorrisos e olhares baixos, fingindo não ver o dia correr, fingindo não fazer planos. Vamos nos entregar aos poucos ao susto, a não saber aonde chegaremos. Sem medo, porque, bem ou mal, conhecemos o caminho. Conhecíamos há muito tempo; apenas não tínhamos encontrado quem nos levaria até ele.
Toma a minha mão, eu te conduzo. E sei que farás o mesmo por mim, quando for preciso.

Pensei que nada nasceria na minha pele, no meu corpo, que nada brotaria, porque não havia quem pertencesse aqui. Que o cheiro grudado nos lençóis sairia cinco minutos depois da tua partida, e que a bagunça da cama se arrumaria num passe de mágica, para voltar a minha própria desordem, de cigarros, ironia e distração. Pensei que não havia ninguém para pedir, gritar, ansiar o amanhã, para sentir uma música, ler a lua, ouvir a noite chegar e admitir que, um dia, as coisas saíram dos trilhos e desobedeceram minha ordem para manter o controle.

Lembro da surpresa de te olhar uma, duas, dez vezes, e me reconhecer em todas elas. O lado bom, me alegrei por encontrar. Mas não sabia que poderia ver em você até as sombras, de deboche, inquietude, impulsos, desconfiança, o que sei que é ruim e insisto em ignorar, mas que você me faz ver, só para que eu saiba que não posso fugir do que sou. Não posso fugir porque você [de um jeito ou de outro, muito ou pouco, bem ou mal, já] está em mim.

Eu quero ver você saindo do quarto, buscando as roupas no chão, atrasado para sair, com raiva, com tédio, sendo distante, sentindo saudades, quero você para suportar a rotina; [quero você] para não sufocar nos dias quentes, para explodir de desejo, para me calar durante as brigas e fingir que nada ouço. Quero você para me observar como se fosse uma louca de hospício, quando digo que meu estômago revira no simples abrir dos teus olhos, no escuro das quatro da manhã.
Reviram-se as entranhas, a garota se revira. Está viva, afinal. E passa muito bem.

/as palavras não são novas. mas fazem sentido.

20.9.08

parou a música, parou o estrobo. qualquer palavra agora é desnecessária, como dizem naquela música que adoro. eu deixo as minhas mãos dialogarem com as tuas, não as bocas, os corpos. as minhas mãos, espertas, deslizam pela interminável dorsal, vão, retornam, até que o teu cheiro fique nelas. as minhas mãos seguram as tuas costelas, sem curvas, a retidão. a minha boca cala a tua boca e controla os teus impulsos, deixa a pressa de lado um pouco, me ajuda a me livrar do que nos separa. segura meu cabelo e me prende em ti. eu não sei o que é, pode ser algo tão bom, ou talvez não seja nada (distração?), agora não importa, porque agora nós sabemos que vai valer a pena. vem, me arrasta para baixo, força o teu peso e a tua rispidez. áspero. tátil. devagar. me faz sorrir e morder a língua nos gemidos. me arrasta devagar entre os teus pêlos, enquanto eu tremo, mastigo, me machuco nos sobressaltos de sentir o mesmo que tu sentes, me machuco só porque quero te acompanhar. façamos a troca, o que tem de bom em nós dois, pele, rins, quadris, levanta as pernas, me pressiona os ombros, o inquestionável. fecha os olhos, eu te guio. solta os braços, eu te faço sentir. fala, no meio do barulho, que você me quer. amanhã faremos promessas, de dias de sol, de noites sem fim, amanhã conversaremos com vírgulas, pontos e sorrisos. hoje, agora, na bagunça e no suor, minha meia rasgou-se. são tantos fios de cabelo em você. e toda a minha educação, ralo abaixo.

17.9.08

o único problema de ter os seus poucos amigos/conhecidos espalhados em algumas capitais do país (e do mundo) é que só a internet nos une (salva, derrota, desata, corrompe, muda...). e como você pouco fala, abre a boca mais para fumar, beber água ou bocejar, começa a ficar irritado de passar horas ouvindo só o 'pecpecpocpoc' insistente do teclado. irritado, amuado, triste? semana passada estava lendo aqui no quarto e ouvi minha mãe cantando enquanto limpava o pátio. saí e fui me sentar perto da porta da sala. só aí me dei conta de que fazia quase 20 horas que não falava com ninguém, nem sozinha, e os únicos ruídos que eu ouvia eram a nina, o morrissey e o latido das duas cadelas aqui de casa.
uau.
ironia.

**

enfim, você quer que eu deixe de ser covarde, a.? eu deixo. não por você, por mim. meu nível de tolerância atingiu o máximo e eu vou nadar de volta a superfície. não precisa me jogar uma bóia quando ver minha cabeça no horizonte, eu sei chegar sozinha a areia. eu deixo de ser covarde, mas por favor pare de tentar me fazer ter orgulho disso. no fundo, nem eu nem você somos como os outros. você pode até achar isso normal, eu não.

**

pescoço será o tema seguinte. é, eu sou obsessiva com partes do corpo, em especial joelhos e pescoços.

16.9.08

às 22h50, alguém fala que sou covarde.
às 23h32, alguém fala que eu não sei quando parar.

epa.
esse não é blog pra ser diário. eu já tive blog diário, que conseguiu reunir número até significativo de 'leitores'... não por ser bom, simplesmente por amizade dos que o acessavam todo dia, claro. de qualquer forma, este não é um blog do estilo 'my dear diary'. não tenho mais paciência nem idade para tal. quem quiser que apareça, caia aqui por acaso, leia, ache um lixo e vá embora. seis anos atrás as coisas eram bem mais bacanas. hoje em dia, elas só pesam muito. não tem como não pesar, quando você vê os seus amigos mais próximos tendo bebês, casando ou fazendo o mestrado. ou as três coisas ao mesmo tempo. p****....

em todo caso, sim, eu sou covarde. e nunca sei quando parar. heh.

15.9.08

olha, hoje lembrei que ano que vem vai fazer dez anos da clássica festa de uma clássica pessoa numa clássica casa num bairro perto do estádio da ponte. cqp, são paulo, 1999. não foi um evento selvagem, não houve sacanagem desenfreada ou bebedeiras atômicas. é que vai fazer dez anos da noite em que eu e meu melhor amigo passamos uns pares de horas deitados em dois colchonetes na varanda, olhando a chuva sem graça, falando tão pouco, apenas apertando as mãos ou nos fazendo afagos. 'como se faz carinho nos gatos', você disse. 'mas tu tens rinite', respondi.
lembrei disso porque estava pensando no item 6779 do livro dos clichês, o que diz que as pessoas vêm e vão. fato. de umas você lembra mais, de algumas você não guarda o rosto, de outras faz cara de sem graça porque as encontra num bar, e é mais fácil um raio te vir a cabeça do que o nome daquele cara de camisa verde e bermuda branca.
até hoje nunca foi um problema. é aceitável que as pessoas venham e vão. algumas eu faço questão de guardar o rosto, um número de telefone, um frame rasgado, ou, nesses tempos modernos, um endereço de blog.
as pessoas chegam e saem porque elas mudam de cidade, de emprego, casam, têm filhos, se cansam de você, brigam, te gostam por um certo tempo e depois você nada mais tem a oferecer a elas, por tantas razões. e isso é normal, não? tem algumas que você gostaria que ficassem, e uma ou duas ficam. isso também é normal, não?
no fundo, eu nunca cogitei pedir para alguém ficar. nem mesmo de brincadeira disse isso aos meus amigos que foram embora, ou a um namorado, não falei 'não vai, porque vou sentir a tua falta', só para receber um sorriso e um abraço de volta. é engraçado porque, a única pessoa para quem eu quero falar isso, nem mesmo tenho certeza se ela já veio até mim, antes de partir. é um trabalho duplo. primeiro descobrir se você esteve aqui. depois correr atrás e te pedir para não ir.

11.9.08

é tudo verdade, eu não minto. eu preciso desse ruído aqui, o mais perto possível. é por necessitar de barulho que viro as páginas do 'buraco na parede' bem devagar, para sentir, menos com o ouvido, mais com o corpo, cada uma delas ressoando fundo. é um prazer esquisito, ouvir com as mãos, sabe? ouvir com o corpo inteiro, vibrar a cada latido dessa cadela gigantesca que passa o dia inteiro a arfar no pátio, ou me alegrar ao ouvir as risadas e as palavras, por mais vãs que sejam, de quem está por perto. de quem já foi tão íntimo, e agora me é tão estranho. dos que estão longe, eu os imagino falando, rindo, resmungando, caminhando, vivendo. imagino a respiração compassada e as batidas do coração.

eu preciso de barulho para suportar meu próprio silêncio.
eu preciso de barulho para suportar quem sou.
eu preciso de pessoas para suportar quem sou.

3.9.08

Insônia é para os felizes.
Para os que questionam, ou não crêem, só prolonga o que deveria ter acabado há muito.

2.9.08

não defino estados de espírito, porque não creio em definições. às vezes tento anotar em meus cadernos o que penso de mim, e de você, e dos estranhos na rua, dos cães e das árvores, sem muito sucesso. uns me inspiram carinho, outros cuidado, outros curiosidade, alguns despertam os três ao mesmo tempo, outros nada. portanto, não defino melancolia. por mais que a ouça (a palavra, não seu significado) nos discos, nos livros, por mais que ela apareça nas folhas brancas de meu dicionário, eu não a imagino. não me aparece ocre como 'amor', nem laranja como 'amizade'. melancolia para mim é palavra sem cor, sem forma, sem sentido, como deve ser.
pois bem. acabei de mudar de idéia. melancolia tem a forma dos anjinhos de madeira que minha mãe talhou e pintou, e estão a secar numa mesa próxima a cozinha. acabei de vê-los. provavelmente enfeitariam uma árvore de natal, se uma tivéssemos. são anjos pequenos com sorrisos vermelhos, olhinhos negros, asas azuis, roupas quadriculadas com detalhes dourados. rostos doces, bondosos. poderiam ter sido pintados por mim, ou por minha irmã, quando éramos mais jovens e fazíamos trabalhinhos de arte inúteis na escola. minha mãe compensou a mão não tão certa e a infantilidade com objetividade. só de propósito ela teria acertado fazer anjos brilharem no escuro ao refletirem tamanha melanc...
não temos uma árvore de natal, espero então que estes anjos sirvam como presentes. não quero vê-los de novo. só porque trouxeram definição, cor e rosto para a palavra melancolia. para a minha, pelo menos.

/23h52.