-moça, você deixou isso aqui cair, olha.
-ah, não é minha, não. deve ser daquela outra mulher ali, ó.
O moleque correu e deu a pequena caixa a outra mulher. Era minha, ele estava certo, mas não fui capaz de aceitá-la. Não gostava de andar com o que não parecia ser meu, ainda que fosse, por fato e direito. Talvez a outra mulher cuidasse melhor do conteúdo da caixa, poderiam se tornar companheiras, boas amigas.
Eu e a caixinha tivemos bons momentos, é verdade, mas tivemos brigas terríveis, também. Eu a acusava, repetidamente, de me faltar quando necessário. A caixa respondia que sempre estava ali, eu é que fingia não enxergar o que ela guardava, porque não sabia usar o conteúdo direito. "ou porque tem medo ou porque gosta de viver como pária", ela respondeu, uma vez.
Estava disposta a dispensar a alegria que só a caixinha e seu conteúdo poderiam proporcionar, conseqüência direta do uso com cautela e bom senso. Não por não me considerar merecedora; apenas porque temia não saber cuidá-la, alimentá-la, fazê-la sentir o quanto eu apreciava a sensação de tomar meus rumos, sem esbarrar em obstáculos imaginários ou objetivos falsamente impossíveis.
A desconhecida pegou a caixa e a espiou, ângulo por ângulo. Torci para que a colocasse na bolsa e fosse embora para bem longe. 'vai dispensar uma dose extra do que tem aí, idiota?', pensei, quase gritando. vamos lá! Claro que você também vai sofrer, de tempos em tempos. Entretanto, confio em você, estranha, confio que vai agir diferente. você vai ter dias ruins, vai chorar, vai se deixar abater até o fim, só para reaparecer, sábia, experiente, um tantinho irônica, um tantinho endurecida (sin perder la ternura), pronta para um novo round.
[cinco minutos depois.]
-moça, a mulher disse que a caixa é sua.
-mas eu não quero.
-moça, pega. todo mundo tem uma mesmo, você não pode ser a única sem.
Voltei para casa, abri a caixa e afoguei o que havia lá dentro, a minha coragem, num copo de vinho.
Ela sobreviveu, por milagre, e cogita me dar uma nova chance.

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