Ah, o meu amor egoísta. Egoísta, passional, quieto, que nada pede, que tudo espera. O meu amor paradoxo. O meu amor que faz piadas, que treme os cantos da boca quanto fica nervoso. O meu amor te levou ao cinema quando você não queria ir, ainda conseguiu arrancar um sorriso ao te jogar pipocas, pura implicância. O meu amor foi o teu amor, foi amizade, muitas vezes foi raiva, escape, deboche, confidência, calmaria. O amor que você não permitia dormir ao teu lado, mas que parecia ficar feliz, por um piscar de olhos, quando eu desobedecia tuas regras e permanecia. Meu amor que te fazia cantar, fazia a gente dançar, eu com a cabeça encostada no teu peito, ou bailando discoteca, fazendo passinhos ridículos, se jogando no sofá, trocando beijos, mordendo o tédio. O meu amor te fazia contar sobre a infância, trocava segredos, revelava defeitos. O meu amor foi tolerante aos teus dramas, a tua família inexistente, aos teus pés tortos, teus problemas de saúde. O meu amor foi tolerante aos teus erros, e os teus erros aceitaram o meu amor, cheio de contradições, o meu amor que era novidade no teu mundo. O meu amor persistiu por motivos que desconheço. Porque eu sou corajosa, porque eu fui carente. Cheia de curiosidade. Acho que foi porque a gente sempre sorria toda vez que nos encontravámos, desde a primeira vez que nos vimos. Sorrisos precedem beijos ardentes, a disputa dos corpos. Eu te fiz suspirar de frustração, você me derramou algumas lágrimas, devidamente choradas longe de ti. Persisti não pela expectativa do futuro, apenas pelo conforto do presente. De quem sempre se sentiu tão sozinha, ainda que rodeada de barulhos, família, música e corações colecionados, que, ao poder libertar-se da solidão, se entregou sem pensar duas vezes. Meu amor não foi amor, será? Foi fantasia, foi uma brincadeira inocente, com dia e hora para terminar? Como se mede amor, como se define, tem nome científico, tem metodologia? Tem volta, tem vez, tem versão 2.0? Update, antivírus? Meu amor não-default, meu amor que sabe de onde veio, teima descobrir para onde vai? Amante do jazz, fã de novela das oito, de vinho, insone, que guarda ficção científica debaixo da cama, que gosta de cozinhar mas não sabe, faz birra, que ama o Rio de Janeiro, que detesta cebola, assiste seriados velhos, que xinga em inglês, ainda quer aprender italiano e jura que conhecerá Praga antes dos 38. Meu amor segue adiante, não procura, esbarra, atropela, vive ansioso, sente. Por mais que já tenha decidido, cem vezes num único dia, fechar-se, continua sentindo. Coração burro. Mente insistente.

<< Home