16.10.08

/fragmentinho.

-moça, você deixou isso aqui cair, olha.
-ah, não é minha, não. deve ser daquela outra mulher ali, ó.

O moleque correu e deu a pequena caixa a outra mulher. Era minha, ele estava certo, mas não fui capaz de aceitá-la. Não gostava de andar com o que não parecia ser meu, ainda que fosse, por fato e direito. Talvez a outra mulher cuidasse melhor do conteúdo da caixa, poderiam se tornar companheiras, boas amigas.
Eu e a caixinha tivemos bons momentos, é verdade, mas tivemos brigas terríveis, também. Eu a acusava, repetidamente, de me faltar quando necessário. A caixa respondia que sempre estava ali, eu é que fingia não enxergar o que ela guardava, porque não sabia usar o conteúdo direito. "ou porque tem medo ou porque gosta de viver como pária", ela respondeu, uma vez.

Estava disposta a dispensar a alegria que só a caixinha e seu conteúdo poderiam proporcionar, conseqüência direta do uso com cautela e bom senso. Não por não me considerar merecedora; apenas porque temia não saber cuidá-la, alimentá-la, fazê-la sentir o quanto eu apreciava a sensação de tomar meus rumos, sem esbarrar em obstáculos imaginários ou objetivos falsamente impossíveis.

A desconhecida pegou a caixa e a espiou, ângulo por ângulo. Torci para que a colocasse na bolsa e fosse embora para bem longe. 'vai dispensar uma dose extra do que tem aí, idiota?', pensei, quase gritando. vamos lá! Claro que você também vai sofrer, de tempos em tempos. Entretanto, confio em você, estranha, confio que vai agir diferente. você vai ter dias ruins, vai chorar, vai se deixar abater até o fim, só para reaparecer, sábia, experiente, um tantinho irônica, um tantinho endurecida (sin perder la ternura), pronta para um novo round.


[cinco minutos depois.]

-moça, a mulher disse que a caixa é sua.
-mas eu não quero.
-moça, pega. todo mundo tem uma mesmo, você não pode ser a única sem.

Voltei para casa, abri a caixa e afoguei o que havia lá dentro, a minha coragem, num copo de vinho.
Ela sobreviveu, por milagre, e cogita me dar uma nova chance.

9.10.08

me ajuda a arrumar as malas. a resumir tanto tempo num retângulo de tecido, com rodinhas e uma alça. me leve ao ponto de fuga. no meio do caminho, faça uma gracinha, me arranque um sorriso, me deseje boa sorte. diga que eu consigo. diga que o que importa não é o destino, e sim a viagem. ria do próprio clichê. os clichês hoje são chamados assim porque um dia significaram qualquer coisa.
me ajuda a não chorar porque estou deixando o que é seguro. me abraça apertado, porque daqui por diante, estará frio. me bagunça os cabelos, diga que estou bonita, e que quem pensa que não vou conseguir está errado. que eu não estou abandonando nada, que todos sempre estarão comigo. pensarão em mim, sentirão o coração tremer de saudade e de esperança. podem ser duas, quinze, ou cem pessoas. não importa, desde que quem pense em você pense com carinho. diga isso, eu quero ouvir.
me receba no ponto de chegada. esteja comigo para que eu te veja sempre que sentir escurecer em minha mente. que eu tenha força nos dias em que tudo vai dar errado. me manda recados, mensagens inesperadas, um telefonema de trinta segundos perguntando como estou, se estou me divertindo, se sinto a sua falta. me faz ir dormir feliz, porque ainda tenho com quem contar. mão, ombro, olhos, afagos.
não deixa que o que a gente é se acabe. não deixa que a distância corroa as noites que passamos ao telefone. que amarelem as imagens da gente sentados em qualquer canto, tomando café, falando bobagens. não permita que novas pessoas pisem naquele espacinho demarcado no músculo vermelho e um tanto disforme. elas virão, mas o teu espaço está ali. e a gente vai continuar a se querer tão bem, que nem parece que estamos longe.
você veio comigo, não se lembra? e eu não vou te deixar ir embora.

4.10.08

/...

eu não vou mais brigar. ficarei quieta, distribuirei sorrisos, darei doces para as crianças no dia das bruxas (e/ou nos dias de são cosme e são damião), irei à missa do galo, passarei o natal com a família, jejuarei no ramadã, rezarei e renascerei no yom kippur. serei magra, saudável, comerei salada, não gostarei mais de frituras. serei cumpridora das leis, pagadora de impostos, cidadã de bem. não beberei, não terei tristezas repentinas. cólica nunca me afetará. não desejarei que o dia se torne noite para que eu não precise levantar da cama. não desejarei o mal de quem um dia quis o meu. serei fiel, serei leal, um dia serei mãe, um dia, talvez, esposa. terei um cão e um peixe num aquário oval. serei justa, serei bondosa, voluntária num hospital, doarei dinheiros para financiar pesquisas para a cura do câncer. deixarei os amigos chorarem em meu ombro, lerei kafka de cabo a rabo, assistirei somente programas de televisão construtivos, tornar-me-ei fã de karajan. cortarei meu cabelo corretamente, me maquiarei com discrição. serei pacata, ordeira, meus braços não terão marcas, não sentirei dor. não discriminarei, não julgarei, não apontarei o dedo para o defeito alheio. terei sempre bons conselhos para dar. não ocuparei o tempo de outrem reclamando de pequenices do dia-a-dia. serei boa. serei... boa.

seria capaz de prometer a perfeição, só para que me deixassem ser imperfeita.

2.10.08

cansei de ser óbvia.
cansei de cansar.

1.10.08

ambigüidade pode chamar-se curiosidade, que pode chamar-se covardia, que pode me chamar pelo nome. não sei.

de qualquer forma, não é num mal sentido. sou leal, sempre fui, aos que têm meu afeto. sou leal como um cão, um ombro amigo, a música favorita, um travesseiro quente numa madrugada de inverno, ou, talvez, uma taça de vinho.

fui infiel apenas a mim mesma. me traí ao dizer que esta volta seria definitiva, mas eis que aqui estou, planejando novas rotas e uma nova vida. entretanto, não minto. não minto a mim, a meus pais, a meus pares. leal como um cão. inquieta como um feixe de luz. mesmo irritada, meus olhos são claros, minha boca é alegre, eu toda sou transparente. fácil como um dia de sol e praia. basta enxergar.