18.11.08

Ah, o meu amor egoísta. Egoísta, passional, quieto, que nada pede, que tudo espera. O meu amor paradoxo. O meu amor que faz piadas, que treme os cantos da boca quanto fica nervoso. O meu amor te levou ao cinema quando você não queria ir, ainda conseguiu arrancar um sorriso ao te jogar pipocas, pura implicância. O meu amor foi o teu amor, foi amizade, muitas vezes foi raiva, escape, deboche, confidência, calmaria. O amor que você não permitia dormir ao teu lado, mas que parecia ficar feliz, por um piscar de olhos, quando eu desobedecia tuas regras e permanecia. Meu amor que te fazia cantar, fazia a gente dançar, eu com a cabeça encostada no teu peito, ou bailando discoteca, fazendo passinhos ridículos, se jogando no sofá, trocando beijos, mordendo o tédio. O meu amor te fazia contar sobre a infância, trocava segredos, revelava defeitos. O meu amor foi tolerante aos teus dramas, a tua família inexistente, aos teus pés tortos, teus problemas de saúde. O meu amor foi tolerante aos teus erros, e os teus erros aceitaram o meu amor, cheio de contradições, o meu amor que era novidade no teu mundo. O meu amor persistiu por motivos que desconheço. Porque eu sou corajosa, porque eu fui carente. Cheia de curiosidade. Acho que foi porque a gente sempre sorria toda vez que nos encontravámos, desde a primeira vez que nos vimos. Sorrisos precedem beijos ardentes, a disputa dos corpos. Eu te fiz suspirar de frustração, você me derramou algumas lágrimas, devidamente choradas longe de ti. Persisti não pela expectativa do futuro, apenas pelo conforto do presente. De quem sempre se sentiu tão sozinha, ainda que rodeada de barulhos, família, música e corações colecionados, que, ao poder libertar-se da solidão, se entregou sem pensar duas vezes. Meu amor não foi amor, será? Foi fantasia, foi uma brincadeira inocente, com dia e hora para terminar? Como se mede amor, como se define, tem nome científico, tem metodologia? Tem volta, tem vez, tem versão 2.0? Update, antivírus? Meu amor não-default, meu amor que sabe de onde veio, teima descobrir para onde vai? Amante do jazz, fã de novela das oito, de vinho, insone, que guarda ficção científica debaixo da cama, que gosta de cozinhar mas não sabe, faz birra, que ama o Rio de Janeiro, que detesta cebola, assiste seriados velhos, que xinga em inglês, ainda quer aprender italiano e jura que conhecerá Praga antes dos 38. Meu amor segue adiante, não procura, esbarra, atropela, vive ansioso, sente. Por mais que já tenha decidido, cem vezes num único dia, fechar-se, continua sentindo. Coração burro. Mente insistente.

14.11.08

/en guarde?

trocando em miúdos,

deixa eu explicar uma coisa: eu te massacro, e você me detona. eu te cubro de indiferença, você não me notaria se eu derretesse ao teu lado. seguimos nos golpeando, não brutos, não abruptos. somos leves, elegantes, esgrimistas. apesar dos floretes afiados alternando defesa e ataque, movimento e inércia, não derramamos uma só gota de sangue ou de suor. eu avanço para você me fazer tropeçar. você recua para que eu queira te perseguir. é uma dança estranha, em círculos. apenas pelo prazer de trombar um no outro, encostar os ombros de leve, nos afastarmos, e voltarmos a duelar, percorrendo o círculo mais uma vez. voltar ao ponto de partida e fazer tudo de novo, do mesmo jeito, sem parar jamais.

6.11.08

[eu guardo minhas polaróides.]

i keep my polaroids, you know? muitas. por saudosismo, por diversão, por respeito ao momento enquadrado ali. por sorrir ao ver a garota assoprando as velas do bolo de aniversário, por carinho aos amigos sentados num bar vagabundo, dar risadas enormes de uma noite de porre, pelo meu próprio rosto olhando para o lado contrário, enquanto a máquina faz o barulhão em minha frente.

i even keep the polaroids i should not keep. aquelas em que não estou sozinha. também pelo respeito ao momento enquadrado ali. os trinta segundos em que gargalhei, e você também, e nós depois reclamamos que estávamos com cara de idiotas. essas, entretanto, ficam escondidas. na última página do último volume de, sei lá, da Enciclopédia Britânica, de um livro que nunca leio, que só acumula poeira e faz volume. eu as mantenho para saber por quanto tempo serei incapaz de abrir aquelas páginas com normalidade, até quando irei sentir um arrepio de espanto, frustração, saudades ou tristeza. o dia em que conseguir fazer graça de meu cabelo, das suas roupas, da decoração da festa onde tiramos a foto, neste dia eu poderei jogá-las fora, ou colocá-las junto das fotos que guardo com prazer.

[na verdade, até hoje, uma única foto fez parte desta segunda categoria (a única salva do turbilhão que queimou roupas, bilhetes e letras de música), e eu pude colocá-la junto às demais há pouco tempo. foi quando não me doeu mais saber o quanto éramos diferentes, quando não me afetou mais ouvir a tua voz, quando eu não planejei por dias o que iria dizer quando te ligasse para desejar 'feliz aniversário', e aceitei que nunca quisemos as mesmas coisas. agora eu penso em ti com um afeto besta, um bem querer sorridente, a sensação verdadeira de que falar 'te desejo o melhor' não é só uma frase perdida, mas, de fato, o meu sentimento.]

[o volume da Enciclopédia Britânica ficará vazio, por um bom tempo. não quero mais que o que senti de bom se amarele numa fotografia. uma ou dez. trinta superficiais segundos em que fomos só a gente, mesmo quando nunca houve a gente. trinta segundos de um beijo nos lábios e do disparar de uma polaróide.
eu quero mais que trinta segundos, babe.]

/para a. you must know, i know i know.