29.8.08

Não, não estou bem, não é óbvio, isso?
Não é visível, nas linhas da minha testa, nas veias do meu braço, que pulsam mais rápido que o normal?
Não é complicado. Não, não estou bem. Contudo, ao fim do dia, sim, eu ficarei bem. Porque não tenho talento para a entrega sem medo ao ócio, porque meu 'bom senso' ainda tem requintes de apuro, porque me envergonha tanta retração, tamanha raiva e tamanho rancor, sabendo que todos aí fora estão vivendo normalmente, não importa o quão desiludidos estejam, não importa o tamanho da dor de cotovelo.
É fácil. Não estou bem. O que não signfica que irei deitar e morrer de dorzinhas da alma, que irei beber até cair, que me desgastarei em locais improváveis ou pessoas desconhecidas. Não estou bem, mas você não precisa saber disso, porque mantenho um sorriso de ironia e levanto as sobrancelhas a cada absurdo que você me fala. E que todos me falam, também.
Por fora, e, em parte, por dentro, sou feita de músculos maciços e vermelhos, exemplo de saúde, de disposição, de pessoa bem resolvida e 'nem-aí-para-nada-ou-para-ninguém'.
Só muito fundo é que me dói. Nos locais onde ninguém chega. E sobre os quais ninguém precisa saber.
É tão simples. Fechei a porta e engoli a chave.
Quando for a hora de sair, pularei a janela.
É tão simples que, mesmo você, que nada sabe de mim, poderia ver. Não, eu não estou bem.

24.8.08

O instante em que amasso papéis é valioso. É o único que me distrai da confusão. É o único no qual não penso em palavras para descrever-te: ilusório, incompleto, inerte, irrevogável. As palavras me sobram, jorram, pulam inquietas, iguais às minhas mãos, que vão escrevendo bilhetes, escrevendo na linha torta que sai do papel e avança, avança, chega a parede, chegará aos meus braços. Começarei a escrever em meus braços, para me lembrar de ti. Começarei a escrever em meus braços, para marcar o quanto estas palavras me afetam. Não me doem. Nem me surpreendem. Sobem, descem, vão me atingindo, não resta mais um pedaço de pele sem elas:

Ilusório, incompleto, inerte, irrevogável.

23.8.08

[Aug. 4th, 2006 - 12:07 am]

~não~

não me diga que o amor tem pressa de acontecer. urgência. não me diga que tudo vai dar certo no fim. não me diga que há males que vêm para o bem. não me afague os cabelos, não me dê o seu melhor abraço nem me dedique preciosos minutos de consolo. sai, xô. corre daqui. hoje eu te proíbo de me defender, de me poupar, de justificar minha estupidez. hoje a gente troca de lugar e o teu é ficar aqui, ouvindo minhas bichices, minhas florzinhas, minhas histórias cheias de detalhes ocos. te deixo bocejar, revirar os olhos, acabar com um maço. te deixo até tocar fogo em alguma coisa, se o tédio estiver muito grande. te deixo sentar aqui perto e me ouvir, e me condenar, e encostar o dedo no meu nariz me culpando pela inércia que me ronda todos os dias. te deixo gritar e espernear, podes tudo, exceto esse olhar carinhoso e a mão macia que insiste em tocar meu rosto e repetir que as coisas vão ficar bem. o amor não tem pressa de acontecer, porque ele não acontece se não dermos o primeiro passo. e o primeiro passo será sempre um ensaio, porque não virá de mim.

~não~

21.8.08

Aumenta a caixa, castiga o baixo. Não importa se você sabe tocar, importa o quanto você sabe sentir. Recua, sobe o zíper, deixa o fone cobrir seus ouvidos. Se pudesse, cobririam todo teu rosto. Volta, anda em círculos, não olha pra trás. Tem pressa. Cinco e trinta. Será quatro e vinte? O dia vai chegar, vai nascer de novo, e você ainda não parou de pensar, não parou de lamentar, de rir pra fingir que está bem, de arranhar os discos, de desejar ser o Rob pra passar o maior aperto e no final voltar a discotecar e descobrir que ama a Laura. E que a Laura te ama de volta. O dia passou, mas, adivinha, a noite não faz bem. Estar no escuro não significa estar seguro, nem de si, nem dos outros, nem para onde você vai depois daqui. Você sabe que quer partir, sabe o que levar, quando quer chegar, só não para onde correr. Recua. Deixa o fone cair no pescoço, entorta, teus ombros estão pesados, teu corpo parece ter envelhecido dois anos em duas semanas. Castiga o baixo. Erra as notas. Aumenta a caixa até doer os ouvidos. Você sabe o que pode. Só ainda não descobriu o que quer.
Não nasci pra ser sozinha, nem pra ser perfeita.
Mas não nasci pra querer só o que não me cabe nas mãos.

20.8.08

A pior hora do dia é aquela na qual se apagam as luzes, a bateria do ipod morreu, você cansou de ler e não se consegue dormir. Me dá medo, porque é a única hora na qual não consigo distrair e evitar meus pensamentos.

Pior que ter medo dos outros é ter de si, obviamente.

18.8.08

agora eu sinto uma angústia tão grande, que parece me agarrar pelas costas. prende minha respiração. não penso no que deveria estar pensando, em quem deveria estar pensando, só no que fiz e não devia ter feito. e no que eu não fiz.

/isso, no dicionário, se chama arrependimento.