2.9.08

não defino estados de espírito, porque não creio em definições. às vezes tento anotar em meus cadernos o que penso de mim, e de você, e dos estranhos na rua, dos cães e das árvores, sem muito sucesso. uns me inspiram carinho, outros cuidado, outros curiosidade, alguns despertam os três ao mesmo tempo, outros nada. portanto, não defino melancolia. por mais que a ouça (a palavra, não seu significado) nos discos, nos livros, por mais que ela apareça nas folhas brancas de meu dicionário, eu não a imagino. não me aparece ocre como 'amor', nem laranja como 'amizade'. melancolia para mim é palavra sem cor, sem forma, sem sentido, como deve ser.
pois bem. acabei de mudar de idéia. melancolia tem a forma dos anjinhos de madeira que minha mãe talhou e pintou, e estão a secar numa mesa próxima a cozinha. acabei de vê-los. provavelmente enfeitariam uma árvore de natal, se uma tivéssemos. são anjos pequenos com sorrisos vermelhos, olhinhos negros, asas azuis, roupas quadriculadas com detalhes dourados. rostos doces, bondosos. poderiam ter sido pintados por mim, ou por minha irmã, quando éramos mais jovens e fazíamos trabalhinhos de arte inúteis na escola. minha mãe compensou a mão não tão certa e a infantilidade com objetividade. só de propósito ela teria acertado fazer anjos brilharem no escuro ao refletirem tamanha melanc...
não temos uma árvore de natal, espero então que estes anjos sirvam como presentes. não quero vê-los de novo. só porque trouxeram definição, cor e rosto para a palavra melancolia. para a minha, pelo menos.

/23h52.